quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Imitação do Natal

       Ele sempre gostou do Natal, por mais brega que parecesse.
       Tanto que podia ouvir suas músicas em qualquer época do ano. Na cidade grande, o natal era uma algazarra de compras sem fim. Sua alegria tornou-se cear em casa de mãe de padrasto, e ver os fogos da laje que outras pessoas - essas também presas - soltavam de dentro dos quintais. Diziam que os ladrões estavam por toda parte e desviavam-se do seu caminho de ovelha, uma vez que o indulto de natal fosse concedido.
      Era abril de não-natal quando ouviu um concerto, a Missa Sancti Hieronymi, de Michael Haydn. Não podia viver sem música. Homem amusicado era homem amuado. Era uma experiência como aquela suficiente para ficar feliz por dias, alma alimentada. Tinha por vezes anemia de alma, por estar absorto em suas obrigações de cidadão de megalópole. Na verdade, acreditava que sua alma fazia também parte do seu corpo, que na verdade corpo não anulava alma, alma não anulava corpo, fossem o que fossem. Mas naquele lugar, não era necessário muito mais que um corpo para se deslocar como peça de tetris humano. A música desvinculava do jogo. Era ouvi-la que game over: o jogo acabava.
       Sempre foi atraído por obras sacras, para além de preferências ou afinidades religiosas. Isso não lhe era relevante. Bastava ouvir algo como essa missa para apreender a experiência do mais ali. O credo não importava. O efeito do indo fluindo efluindo é o que realmente o atraía; tanto que chorou. Chorava sempre, mesmo que a música fosse de alegria de alma. Talvez por ter crescido em uma igreja batista - ele cantava em coral - e depois em igreja pentecostal, vivendo uma espécie de Reforma da Reforma Protestante. Talvez porque ele se visse lá, representado. Ou precisasse estar lá, remontando a um tempo que não tivesse crescido. Nunca cresceu propriamente. Portanto, não é de se espantar que aquilo fizesse  parte dele. De alguma forma, aquele coral, aqueles músicos, eram ele; e sabia. Era-lhe difícil ficar sentado na experiência e não correr ao palco para abraçar e agradecer pela dádiva de refazê-lo vivo. E por garantir sua existência por mais alguns dias. Jamais pensaria em morrer.
       Ele decidiu que queria ouvir o coral todos os dias. Queria que eles fossem uma parte fundamental de seu corpo. Ele queria que todos os dias eles o fizessem dormir cantando qualquer coisa. Ó, pinheirinho de Natal, que nunca, nunca muda! Dormiria sono infante e feliz. Queixa pra lá.
       O último movimento da missa era o Agnus Dei. Sempre gostou da expressão. Continuou gostando quando descobriu o significado. Continuou gostando quando pareceu ter perdido o significado. E, de vez, continuou gostando hoje que vive ressignificando tudo.   

Agnus Dei, 
Qui tollis peccata mundi,
Miserere nobis,

Dona nobis pacem.

       Um dia descobriu que era assim: "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, tende piedade de nós. Dai-nos a paz." Foi por isso, talvez. Naquele dia, com a música de coral, ele (re)encontrou a paz, que precisava ser encontrada constantemente na sua vida de homem. A paz não lhe era uma quietude mórbida. Encontrava a paz quando diminuía. Quando voltava a ser o garotinho míope que se esforçava para ler o que estava escrito naquela página da pasta preta com plásticos de guardar folhas, para a cantata do natal, mas que quando forçava bem os olhinhos e afundava a pasta na cara - pelo seu mundo ser por demais embaçado e estrábico - estava lá:


Ó, pinheirinho de Natal, que nunca, nunca muda.
No frio, inverno e no verão.
Teus ramos sempre verde estão.
Ó, pinheirinho de Natal, que nunca, nunca muda.

      


sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Albatroz


Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado ao chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.



Charles Baudelaire - As Flores do Mal

terça-feira, 15 de maio de 2012

Artaud surrealista

"Toda vez que a vida é tocada, reage através do sonho e de fantasmas"

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Café Italiano


Cheiro de pasta
Molho no prato
Carros que passam
Queijo na mesa
Beautiful day
Coca ao lado
Coração em flor
 Carros que passam

Música pop-rock no bar
Brotando do chão árido
Pessoas sozinhas copos álcool
Yeah, that´s fun
It is a beautiful day
Don´t let it get away
Pessoas que andam
Lemonade limonada suco
colorido flavourizado
fantasiado
artificialmente criado
What a beautiful day!
Carros que passam
Look at this photograph

Is this your small portion of pasta?
Yes, it is.
Eu me pergunto se é tarde
Ah! Elly´s Couture à frente
E uma moça com corte à egípcia
Eu sinto falta daquela cidade

Spicy pasta
Carros que andam
Gosto americano-italiano-apimentado
Falta dos rostos
Pessoas que passam
Parece uma irlandesa ali
Nickelback no bar ao lado

Love me, love me,
Diga só uma vez
Muita muita muita pimenta
Carros que pessoas
Leave me, leave me
Dear, I think we´re facing a problem
Sim, muita pimenta
Carros que pessoas
A sobremesa
Andam que passam
Mas não me deixe
Andam que passam
O doce
Andam que passam
Me traz o doce
Andam que passam
Me traz o doce que ele
Andam que passam
Corta a pimenta
Love me, love me
Passam que andam
Pessoas que carros
Love me
Pessoas,
Vê-me

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Só o Presente é Verdadeiro e Real (Será?)

Algo para lembrar sempre.

       "Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na proporção correta com a qual dedicamos a nossa atenção em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um não estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados. É raro alguém manter com exatidão a justa medida. Aqueles que, por intermédio de esforços e esperanças, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que hão-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, são, apesar dos seus ares petulantes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Desse modo, os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo.Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca nos deveríamos esquecer de que só o presente é real e certo; o futuro, ao contrário, apresenta-se quase sempre diverso daquilo que pensávamos.
        O passado também era diferente, de modo que, no todo, ambos têm menor importância do que parecem. Pois a distância, que diminui os objetos para o olho, engandece-os para o pensamento. Só o presente é verdadeiro e real; ele é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência. Dessa forma, deveríamos sempre dedicar-lhe uma acolhida jovial e fruir com consciência cada hora suportável e livre de contrariedades ou dores, ou seja, não a turvar com feições carrancudas acerca de esperanças malogradas no passado ou com ansiedades pelo futuro. Pois é inteiramente insensato repelir uma boa hora presente, ou estragá-la de propósito, por conta de desgostos do passado ou ansiedades em relação ao porvir."


Arthur Schopenhauer: "Aforismos para a Sabedoria de Vida"

domingo, 22 de abril de 2012

Sobre Fios e Novelos

            Eram auroras horas de idade adulta quando não entendeu o que era. Estava longe de casa e perto do mundo, perdido, encontrado em outro canto dali. Sabia quem era e o quê no momento tal. Sabia despedeçabendo-se. Mas qual caminho percorrera até então, não. Um fio ligava o início do tempo ao quem-agora. O fio era longo e desprovido de massa. O fio às vezes passava pelo Empíreo, ou pelo sétimo círculo. Entre tantas subidas e despenques, não sabia explicar a ligação: o quem-início-do-fio fluindo para o quem-agora.
            Afinal, seria um início de fio indo para uma extremidade continuamente em movimento, ou seria um início de fio, evoluindo para um novelo de lã? Um novelo quente e aconchegante, que guarda dois pares de olhos bem abertos e atentos. Um novelo sufocante e paralisador. Um quartinho frio e úmido no qual há apenas quadros que olham e acenam desde as paredes cinza-chumbo. Um novelo macio. Dentre tantos emaranhados possíveis, porque justamente este, tão autocontido e intricado? O que exatamente determina a posição de um nó.
            O que começa a acontecer depois do nascimento? Todos os bebês levantam com as fraldas em riste ao som de um vigoroso “Vai”, vindo de alguém cujo vislumbre só é possível até as pernas. Para onde correm? Os caminhos fluem sem fim por terra, minhocas, árvores, portão, cerca, cachorro, leite, paçoca, carinho, pão, manteiga, mingau, cereal, arroz, feijão, batata, macarrão, pula-gira-dança-grita, dorme, esconde, corre cai dói esquece levanta aprende chora ri molha quebra escola amigos aprende. Cresce.
            O que fez os bebês com fraldas em riste correr pelo caminho seguido? Depois de correr sem fim, o bebê, vai parar em algum lugar do fio. Ou do novelo. Como foi aparecer aqui, dentre tantos lugares possíveis. Que sequência de caminhos e descaminhos, congruências, desvios, planos, paredes escarpadas, sim-não, sorte/conquista, azar. Perder-se. Encontrar-se. Perder. Encontrar. Perdencontrar.
            Se Alice não visse o coelho, e visse um esquilo, correndo para outra toca qualquer. Se entrasse. Ainda seria uma queda? Haveria ainda uma Rainha Branca e uma Rainha de Copas esperando num mundo em que penetrar significa diminuir? Será que é sempre necessário e fatal seguir o caminho dela. O que acontece quando alguém se recusa a atravessar o espelho.
            Depois de um longo caminho rápido, para. Sem conseguir extrair-se do fio, mas também sem conseguir puxá-lo para onde está. Tampouco consegue desembaraçar o novelo, esse tão quente e aconchegante. Tão escuro e engrenado ocultamente. Querendo escapar, é possível apenas se conformar desajeitadamente em torno de outro nó. E assim sucessivamente até um dia. Na urgência de ir para frente, voltapratrás. Na querência de voltar, é empurrado por uma multidão alvoroçada vindo de pontos pouco definidos em outro tempo. Resta seguir; sobra agora.            
            E aí está: alto em sua bicicleta em uma terra onde os tornados são uma ameaça constante. E onde um dia pode ser tão frio e depois tão quente. Onde cervos e coiotes dividem o mesmo espaço. O quem-estrangeiro no exercício de sua obrigação, contente e pasmo. Contente porque afinal a ponta de fio ou novelo é algo bonito de se ver e brincar. Que o digam os gatos negros de olhos brilhantes. E tudo espanta ao mesmo tempo em que se apresenta como a continuação de um bebê-com-uma-fralda-não-mais-em-riste a seguir fiando ou enovelando. Um quem-agora a buscar a ligação entre quens-carta, embaralhados, em alguma cronologia possível.
            Talvez o fio cruze outros fios. Esses fios são o que fatalmente faz com que o fio em discussão desenvolva suas curvaturas durante a corrida dos bebês. Um fio que cruza e liga em muitos fios. Um fio que eventualmente perde sua ligação com os outros e é obrigado a seguir sozinho. Um novelo que perde nós. Um bebê-com-fralda-em-riste que não mais pode escutar alguém gritando ”Vai”. Um bebê em um grande campo aberto e sozinho, onde a única coisa a escutar é o fonfolhar da grama.
            Então, está longe. É estar longe para chegar perto. Só é possível descobrir que a Terra é aproximadamente esférica, quando se está longe. O quem-astronauta fora de órbita para a contemplação de uma fração de mistério. "A Terra é azul". A elipsóide que gira emaranhando os fios. Os bebês que correm, uns sempre em terra firme, outros em direção ao mar. Novelos a rolar. Um gato negro de olhos brilhantes. Gente sacudindo as mãos para o alto dizendo, provavelmente, “Vai”, enquanto também estão emaranhados; quando a impressão é a de que virarão um único novelo gigante, com um enorme gato negro de olhos brilhantes dentro. E talvez toda criatura-fio esteja gritando “Vai”. Vai Vai vai ai... e é uma pena. Uma pena não poder ouvir o som de alguém quando se está fora de órbita, sem um meio físico adequado para propagar o som. Deste ponto, até os eventos mais extremos do Cosmos ocorrem em silêncio. Nesse ponto, não chega o som. Tudo visto fora da órbita planetária, descansando sobre algum asteroide em descaminho.
            O que mais assusta é efetivamente a perda de conexão com outros fios-novelos. O fim da conexão e de um rastreamento possível do bebê corredor ao quem-agora. O fim de uma linha interpretativa, uma teoria confortante para que o quem-agora receba de braços abertos seu bebê corredor, vindo de algum lugar do passado. O enfraquecimento da trama. O fim do “Vai”. Um fim que vira chute mandando o bebê correr pra sempre sem rumo, enquanto, talvez, esteja correndo em direção ao mar. Às vezes tudo o que necessário é ouvir “Vai”, mesmo que não se esteja mais com a fralda em riste.
            Não existe maneira de fazer com que o fio não ondule ou com que o novelo cristalize. Talvez não haja nada a fazer a não ser continuar o caminho de bicicleta. Passando pelo campo onde cervos e coiotes dividem o mesmo habitat. A reserva natural de Grindstone é um parque no meio do Missouri. Uma espécie de vale, um corredor ecológico. Mas estradas de concreto estão sempre por perto, como a Velha Estrada 63 ou a Estrada da Providência. As estradas estão por toda parte. Continuar o caminho: seguir.
            Mirava a árvore de longe, a acenar num balanço calmo. No vento frio, num canto passando no alto, desde sempre escutado, na cor das coisas procurava por um sinal; o milagre enfim.

Nina

"Eu sou uma gaivota. Não, não é isso... Lembra que você matou uma gaivota com um tiro? Um homem chegou por acaso, viu uma gaivota e, por pura falta do que fazer, matou a gaivota... O tema para um pequeno conto. Mas não é isso... [Esfrega a testa com a mão] Do que eu estava falando?... Falava sobre o teatro. Agora não sou mais assim... Sou uma atriz de verdade, represento com satisfação, com entusiasmo, uma embriaguez que me domina no palco e eu me sinto linda. Agora, enquanto estou aqui, caminho o tempo todo, caminho e penso, o tempo todo, caminho e sinto que meu espírito se torna mais forte a cada dia... Agora eu sei, Kóstia, agora eu compreendo que no nosso trabalho, representando no palco ou escrevendo, o que importa não é a glória, não é o esplendor, não é aquilo com que eu tanto sonhava, mas sim a capacidade de suportar. Aprenda a carregar a sua cruz e acredite. Eu acredito e, assim, nem sofro tanto e, quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida."

A Gaivota - Anton Tchekhov