Tanto que podia ouvir suas músicas em qualquer época do ano. Na cidade grande, o natal era uma algazarra de compras sem fim. Sua alegria tornou-se cear em casa de mãe de padrasto, e ver os fogos da laje que outras pessoas - essas também presas - soltavam de dentro dos quintais. Diziam que os ladrões estavam por toda parte e desviavam-se do seu caminho de ovelha, uma vez que o indulto de natal fosse concedido.
Era abril de não-natal quando ouviu um concerto, a Missa Sancti Hieronymi, de Michael Haydn. Não podia viver sem música. Homem amusicado era homem amuado. Era uma experiência como aquela suficiente para ficar feliz por dias, alma alimentada. Tinha por vezes anemia de alma, por estar absorto em suas obrigações de cidadão de megalópole. Na verdade, acreditava que sua alma fazia também parte do seu corpo, que na verdade corpo não anulava alma, alma não anulava corpo, fossem o que fossem. Mas naquele lugar, não era necessário muito mais que um corpo para se deslocar como peça de tetris humano. A música desvinculava do jogo. Era ouvi-la que game over: o jogo acabava.
Sempre foi atraído por obras sacras, para além de preferências ou afinidades religiosas. Isso não lhe era relevante. Bastava ouvir algo como essa missa para apreender a experiência do mais ali. O credo não importava. O efeito do indo fluindo efluindo é o que realmente o atraía; tanto que chorou. Chorava sempre, mesmo que a música fosse de alegria de alma. Talvez por ter crescido em uma igreja batista - ele cantava em coral - e depois em igreja pentecostal, vivendo uma espécie de Reforma da Reforma Protestante. Talvez porque ele se visse lá, representado. Ou precisasse estar lá, remontando a um tempo que não tivesse crescido. Nunca cresceu propriamente. Portanto, não é de se espantar que aquilo fizesse parte dele. De alguma forma, aquele coral, aqueles músicos, eram ele; e sabia. Era-lhe difícil ficar sentado na experiência e não correr ao palco para abraçar e agradecer pela dádiva de refazê-lo vivo. E por garantir sua existência por mais alguns dias. Jamais pensaria em morrer.
Ele decidiu que queria ouvir o coral todos os dias. Queria que eles fossem uma parte fundamental de seu corpo. Ele queria que todos os dias eles o fizessem dormir cantando qualquer coisa. Ó, pinheirinho de Natal, que nunca, nunca muda! Dormiria sono infante e feliz. Queixa pra lá.
O último movimento da missa era o Agnus Dei. Sempre gostou da expressão. Continuou gostando quando descobriu o significado. Continuou gostando quando pareceu ter perdido o significado. E, de vez, continuou gostando hoje que vive ressignificando tudo.
Agnus Dei,
Qui tollis peccata mundi,
Miserere nobis,
Dona nobis pacem.
Um dia descobriu que era assim: "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, tende piedade de nós. Dai-nos a paz." Foi por isso, talvez. Naquele dia, com a música de coral, ele (re)encontrou a paz, que precisava ser encontrada constantemente na sua vida de homem. A paz não lhe era uma quietude mórbida. Encontrava a paz quando diminuía. Quando voltava a ser o garotinho míope que se esforçava para ler o que estava escrito naquela página da pasta preta com plásticos de guardar folhas, para a cantata do natal, mas que quando forçava bem os olhinhos e afundava a pasta na cara - pelo seu mundo ser por demais embaçado e estrábico - estava lá:
Ó, pinheirinho de Natal, que nunca, nunca muda.
No frio, inverno e no verão.
Teus ramos sempre verde estão.
Ó, pinheirinho de Natal, que nunca, nunca muda.
Artista desconhecido: Agnus Dei. Roma, sec. IX.
Disponível em: http://05varvara.wordpress.com/2011/09/17/unknown-artist-agnus-dei-lamb-of-god-cappella-di-san-zenone-basilica-di-santa-prassede-all%E2%80%99esquilino-roma-italy-9th-century/unknown-artist-agnus-dei-lamb-of-god-cappella-di-san-zenone-basilica-di-santa-prassede-all%E2%80%99esquillino-roma-italy-9th-century/




